- Não - disse Vane! A frieza era evidente, mas seus olhos cintilaram para os dois advogados à sua frente na mesa. - Não é um divórcio. Você vai delicadamente informar a seu cliente que eu quero uma anulação.
O mais jovem arfou e recebeu um olhar de aprovação do superior, Arturo Mazzini, que tirou os óculos, limpou-os e recolocou-os no rosto.
- Mas condessa - ele disse com calma -, isso é, certamente, uma questão de ênfase. O importante é a dissolução do casamento, não como será feito.
O sorriso conciliador não foi correspondido.
- Posso decidir sozinha o que é ou não é importante - disse Vane. - Um divórcio sugere que um casamento existiu de fato entre nós. Quero deixar perfeitamente claro para o mundo que não existiu. Que eu não sou, nunca fui, a esposa do conde Zackary Efron. No sentido estrito da palavra - ela acrescentou.
O signor Mazzini ficou estarrecido.
- Claro... Para o mundo? - ele repetiu. - Mas você não pode estar querendo dizer isso, condessa. Qualquer acordo entre você e o conde Efron tem de ser privado, em termos que não serão divulgados.
- Não fui responsável por meu casamento – Vane disse-lhe de forma indiferente. - O meu pai foi. E eu também não ofereci garantias em relação ao término dele. E, por favor, não me chame de condessa - ela continuou. - Não é apropriado, nas circunstâncias. Srta. Hudgens está bom.
Houve um silêncio desconfortável. O signor Mazzini pegou um lenço de linho e enxugou a testa.
- Está quente demais aqui, signore - seu antagonista perguntou de forma mais gentil. - Gostaria que eu abrisse a janela?
Ambos reprimiram um tremor. Houvera uma forte geada naquela manhã e os jardins em volta da propriedade de Langborne ainda estavam acinzentados. No interior, o antigo aquecimento central também deixava muito a desejar, embora, para a certeza do signor Mazzini, o conde Efron tivesse oferecido mais de uma vez para trocá-lo.
- Você é pura bondade - ele respondeu. - Mas não, obrigado. - Houve uma pausa e então ele inclinou-se.
- Condessa... srta. Hudgens... imploro que reconsidere. O divórcio seria simples formalidade, e as condições oferecidas por meu cliente são mais que generosas.
- Não quero nada do conde. - Vane ergueu o queixo. - Logo que eu fizer 21 anos, ele não vai ter mais controle sobre as minhas coisas. O dinheiro de minha mãe e esta casa serão finalmente meus. Não preciso de nada mais do que isso.
Ela encostou-se na cadeira. O sol baixo do inverno entrava obliquamente pelas longas janelas corrediças.
O jovem Pietro Celli fingia ocupar-se com os papéis à frente enquanto a observava de forma discreta. Magra demais, pálida demais e completamente tensa, ele pensou, lembrando-se com um prazer renovado das curvas sinuosas da última amante do conde, a qual lhe fora permitido admirar algumas vezes, embora somente a uma certa distância.
As mãos esguias estavam nuas, ele percebeu. Assim, só Deus saberia o que a quase ex-mulher havia feito com a aliança de casamento de sua excelência, ou com a safira Efron, que teria de ser devolvida, é claro.
Mas os olhos dela, meu Deus!, eram deslumbrantes. Tinham a cor de um castanho tão puro, e cílios longos. No entanto, o resto do rosto era desprovido de maiores atrativos, concluiu, sacudindo mentalmente os ombros.
E, claramente, uma mulher temperamental. Era de pouco admirar que um conhecedor de mulheres como Zackary Efron tivesse optado por um casamento apenas por questão de conveniência. Quem poderia culpá-lo?
- A não ser, é claro, que seu cliente tenha apostado toda minha herança em algum negócio. - A jovem impossível estava acrescentando suavemente. - Talvez você tenha sido mandado para cá para dar as más notícias.
O signor Mazzini empertigou-se, enquanto Pietro sentiu o queixo cair e teve de se recobrar rapidamente.
- Essa é uma alegação das mais danosas, signorina - o homem mais velho disse finalmente, a voz gélida. - Seu marido cuidou de sua herança da maneira mais exemplar possível, não tenha dúvida disso. Você será uma jovem rica. - Muito mais rica do que merece, o tom na voz dele sugeriu.
Vane suspirou.
- Não estava falando sério. Estou perfeitamente ciente de que o conde Efron é uma das estrelas do mundo das finanças. - Ela acrescentou: - E, naturalmente, sou grata por tudo o que ele fez para mim.
O advogado abriu as mãos em um gesto de desespero.
- Então, se me permite perguntar, por que não mostra sua gratidão e concorda com o divórcio?
Vane empurrou a cadeira para trás e se levantou. Caminhou até a janela e ficou olhando para o lado de fora. Sua silhueta delgada estava coberta por uma blusa de lã creme, calça negra e um cinto de couro.
Ela disse calmamente:
- Porque, quando eu me casar novamente, quero que a cerimônia seja na minha paróquia, mas o vigário é fortemente tradicionalista e não vai concordar se eu for divorciada. Também pretendo me vestir de branco na ocasião para que, assim, meu noivo saiba que não está adquirindo matéria! estragado. - Ela fez uma pausa. - Isso está claro o suficiente para seu cliente?
- Mas seu casamento atual ainda é um fato, srta. Hudgens. - A lembrança do signor Mazzini foi brusca.
- Não é cedo demais para você já estar planejando outro casamento?
- Não existe casamento - disse Vane. - Apenas um acordo de negócios prestes a chegar ao fim.
Ela virou-se.
- Agora posso oferecer-lhes um chá? - O sorriso educado dela não chegou aos olhos. - Acho que o café desta casa não iria satisfazê-los.
O signor, Mazzini levantou-se!
- Obrigado, mas não. Nós dois precisamos de um pouco de espaço para considerar o que foi dito. Talvez possamos ter mais uma conversa amanhã, signorina, na esperança de que até lá você tenha se decidido. Porque, eu lhe digo com toda certeza, sua excelência não vai concordar com a anulação.